A Arte de Contar Histórias

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Escrito por: Biblioteca

Sônia Travassos

 

Desde as sociedades mais antigas o homem conta histórias.  Histórias de viagens, de medos, de amores, de aventuras…  Histórias reais ou imaginadas, que sempre tiveram o poder de despertar emoções, lembranças, sonhos, pensamentos naqueles que as ouvem.

Apesar de vivermos num mundo altamente tecnológico e visual, as crianças continuam amando ouvir uma boa história.  E é ouvindo histórias que adentramos o mundo da leitura, que começamos a nos formar leitores. Na escola, no parque, no carro, ao pé da cama, ouvir uma boa história representa conhecer algo novo, aventurar-se em mundos desconhecidos, descobrir outras formas de pensar, de agir, de sentir, se ser.

Além disso, as histórias ajudam a criança a organizar o seu mundo, uma vez que apresentam um recorte da realidade, com início, meio e fim. É tranqüilizador para a criança pequena perceber que na trajetória de uma personagem, apesar dos percalços e conflitos que venham a acontecer com ela ao longo da história, ela acaba encontrando soluções. A experiência de ouvir histórias é algo enriquecedor para a criança e permite que ela vá conhecendo e entendendo melhor o mundo e as relações que o cercam.

Mas, o que podemos contar para crianças desde a Educação Infantil? E como contar? A atividade de contar histórias está presente no cotidiano da maioria das escolas, porém, muitas vezes, não se dá a este momento a importância devida. Por vezes se lança mão de uma história apenas para passar os minutos finais daquele dia etc. Ou retira-se qualquer livro da prateleira, sem nenhuma preparação prévia, sem a leitura anterior do professor, correndo-se o risco de se apresentar uma história vazia, mal escrita, etc. Perde-se, em movimentos como estes, a oportunidade de se fazer daquele momento algo significativo para a criança.

Está aí um ponto importantíssimo: o papel do professor na escolha da história que vai contar. É claro que muitas vezes o professor lerá uma história que não conhece bem, a pedido de uma criança, por exemplo. Isso faz parte. Porém, quando ele escolhe uma história para contar é preciso que estabeleça critérios para esta escolha. Por que esta história é boa? Que tipo de experiência ela poderá trazer para as crianças? Será ela provocadora de sentimentos, pensamentos, sensações, trocas de ideias, deslocamentos? É uma história que permite aos leitores imaginar, ter pontos de vista diferentes? Ou é uma história moralista, que não abre espaço para diferentes interpretações?

Se queremos formar leitores críticos que pensem e repensem o mundo em que vivemos, precisamos escolher histórias que abram espaço para o imaginário, para a troca, para o contato com a diversidade e não histórias que já trazem uma mensagem fechada e pronta. Percebemos que inúmeras vezes as escolhas são feitas pelo tema da história. “Ah, essa história tem a ver com o tema do meu projeto…” ou “Dá pra trabalhar isso ou aquilo…”.  Não se pode escolher uma leitura literária apenas pelo tema ou de forma pragmática para atender a este ou aquele objetivo mais imediato. É preciso saber como este tema está sendo abordado, que outras provocações ele pode nos trazer para além do mais aparente.E como o autor do texto verbal explora os recursos linguísticos no texto que constrói? E o texto visual: como as ilustrações e projeto gráfico do livro contribuem para a interação do leitor com a história? Por fim, perguntamos, como o professor saberá diferenciar um livro do outro? Lendo, observando, refletindo, sentindo.

Quanto mais o professor conhecer a produção de literatura infantil, mais preparado ele estará para fazer suas escolhas. E são muitas as escolhas que podem ser feitas. Contos de fadas, histórias da cultura popular brasileira e de outros povos, poesias, parlendas, livros de imagem, histórias contemporâneas de autores brasileiros e de outros países, clássicos presentes em diferentes culturas, histórias que abordem temas atuais, que provoquem reflexões acerca de questões étnico-raciais, que falem de sentimentos importantes, histórias engraçadas, curtas, compridas… É preciso que o professor alargue a sua própria experiência leitora, alargue o seu repertório de histórias, para aí sim, saber escolher melhor o que ler, porque ler e quando ler.

Uma questão que sempre aparece na fala do professor é sobre o que fazer depois da história contada. Muitas são as atividades que uma boa história pode suscitar: o desenhar, o representar, o conversar, o trocar ideias, etc., e que podem ampliar a experiência da criança em relação ao universo da história ouvida, provocando interlocuções variadas. Porém, o próprio momento da leitura/contação da história, onde acontece o encontro entre o leitor/contador, a história e o ouvinte, já representa nele próprio, um momento significativo para a criança. Talvez o mais significativo de todos.

Por isso, este momento deve ser pensado com carinho, preparado da melhor forma possível. Isso não significa que o contador tenha que ter a história na ponta da língua ou que tenha que usar inúmeros recursos para contá-la. Um bom livro na mão e uma leitura envolvida, entregue, por parte do professor, é o mais importante. O professor/contador é aquele que empresta suas emoções, sua voz, seus olhares, suas sensações para cada momento da história, para cada personagem daquele conto.  Ele é, na verdade, mais que um intermediário entre o livro e a criança, pois precisa também se deixar tocar pelo o que conta. Para narrar bem uma história, precisa ter intimidade com ela, descobrir seu ritmo, o tom que dará a cada personagem, as modalidades e tonalidades de voz, as pausas, os suspenses, a exploração do humor, das rimas… Em outras palavras, quem conta/lê histórias precisa descobrir como aproveitar o texto verbal e visual da história, como saborear e brincar com suas palavras e imagens e, assim, provocar nos ouvintes as emoções contidas nela, ajudando-os a mergulhar naquele universo e construir sentidos para o que ouvem.

Finalizando este texto, poderia dizer que o bom leitor de histórias é aquele que compartilha esse momento com seus alunos, que curte o que está lendo, que vibra, se surpreende, se emociona com os personagens do conto e que também faz novas descobertas dentro daquele universo. Para isso, sem dúvida, é preciso entrega. É preciso desprendimento. É preciso alma.

Nesses dias de distanciamento social, em que muitas famílias estão em casa com suas crianças, resolvi gravar vídeos, contando histórias para os nossos alunos e alunas, e compartilhar pelas mídias sociais da escola. Espero que as famílias gostem da ideia e mostrem para seus filhos e filhas esses vídeos, que podem ser acessados pelo Canal da EDEM no Youtube, pelo Grupo do Face Brincadeiras e outras ideias – EI e EF1, pela página Apoio Didático do site da EDEM.

 

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