Lições do planeta

09 Nov 16

 

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TEXTO PUBLICADO NA REPORTAGEM DE CAPA DO ESPECIAL EDUCAÇÃO DO CADERNO ZONA SUL (JORNAL O GLOBO) DO DIA 27.10.2016

Como é o desenvolvimento do ciclo natural das plantas? Quais os recursos para recuperar o solo degradado? Um ambiente público em situação de abandono pode ser revitalizado a partir de quais ações conjuntas com a população do entorno? Lixo eletrônico compreende o que temos de conteúdo descartável salvo em tablets e celulares ou são os aparelhos antigos que acumulamos em casa sem qualquer utilidade?

Esses questionamentos foram levados, num primeiro momento, para a sala de aula. Mas logo deixaram o ambiente tradicional para ocupar outros espaços das escolas e até ultrapassar os muros das instituições. Foi-se o tempo de abordar questões sobre o meio ambiente só com os livros. Agora, sujar as mãos na terra faz parte do currículo, com atividades que instiguem a preservação e a recuperação de áreas verdes públicas, o cultivo do próprio alimento e a conscientização sobre o consumo desenfreado e a capacidade real do mundo de absorver e tratar o lixo produzido.

A partir de 2 anos, alunos da região são incentivados a terem contato com a natureza e a problematizarem o mundo em que estão inseridos. As atividades entrelaçam temas de forma lúdica e mostram que teoria e prática caminham juntas. As turmas do período integral da Edem,
em Laranjeiras, colhem os frutos. Na verdade, temperos que são usados nas refeições servidas no almoço. A proposta de ter a própria horta nasceu em 2009, com a nova direção da instituição. A ideia se desenvolveu e ganhou ramificações. Há interseção no cuidado com o plantio, no conteúdo trabalhado em sala e na hora do almoço. A coordenadora do período extensivo, Márcia Figueiredo, conta que cada turma tem sua função definida, o que ainda ajuda a desenvolver o conceito de trabalho coletivo.

— Alunos de diferentes idades assumem cuidados, como com o minhocário, a trituração de sobras de alimentos (casca de batata, por exemplo), regar ecolher. O foco é motivar a alimentação saudável e desenvolver a conscientização ambiental. O que é plantado aqui vai para o consumo. Eles passam a conhecer novos alimentos — diz Márcia.

Os pequenos agricultores sabem nomear uma série de legumes e verduras consumidos no refeitório, onde eles próprios montam o prato. A nutricionista responsável pelo cardápio, Marina de Melo Coelho Ribeiro, afirma que a inclusão das crianças no momento das compras e do preparo é um estímulo ao cuidado com o que consomem. Algumas nem sabem o formato de determinadas frutas. É uma surpresa ver, por exemplo, uma melancia inteira e não fatiada, conta Marina:

— Só comemos o que conhecemos. Daí vêm as possibilidades de experimentar. Nós os instigamos a provar e eles crescem sabendo escolher. Aqui, eles criam o respeito pelo tempo de produção e de amadurecimento e veem a facilidade de cultivar o orgânico — diz a nutricionista.

O aprendizado na prática estimula a curiosidade e tem mais chances de ficar na memória. O aluno absorve o conteúdo enquanto vê a aplicação em situações reais, aponta aeducadora Andréa Ramal:

— Essa idade é o momento de estimular as diversas competências. O contato com cores e texturas aguça os sentidos para a percepção de atividades novas, muito mais que num local fechado. A interação com o meio estimula a capacidade cognitiva.

O cultivo de uma horta pode parecer, num primeiro momento, uma atividade voltada somente à Biologia. O crescimento de frutas, legumes e verduras segue um ciclo fechado, porém pode auxiliar no aprendizado fora de sala em questões que vão além da polinização, da fecundação e da germinação. As características do solo compreendem o viés da Geografia. Já o cultivo de determinados produtos que não são nativos é abordado nas aulas de História.

— Hoje, lidamos com crianças que estão habituadas a fazer várias atividades ao mesmo tempo. Ficar cinco horas dentro da sala é limitador. Pensar na escola fora desses muros, e digo em referência a ter aula na biblioteca ou no teatro, é enriquecedor e motivador. As atividades ajudam a ligar o conhecimento do currículo à vida concreta, de fora da sala para a vida — aponta a educadora.