As meninas estão mudando a escola

31 Ago 16

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http://novaescola.org.br/conteudo/465/feminismo-genero-meninas-mudam-escola

No Rio de Janeiro, os meninos não deixam suas colegas de classe jogarem futebol com eles. Também na capital fluminense, meninas são assediadas nas ruas por usarem saia e meias três-quartos como uniforme. No interior da Bahia, um professor afirma que: “A Matemática sai naturalmente dos poros dos meninos, assim como a Saúde e a Educação são escolhas óbvias para as meninas”. Em São Paulo, as próprias meninas se xingam e se desrespeitam ao sinal do menor desentendimento. E há quem se pergunte se a escola ainda precisa do feminismo...

Enquanto alguns se questionam, muitas jovens – suas alunas – se mobilizam. Ao lado das ocupações secundaristas, as iniciativas feministas, sejam as organizadas em coletivos ou as espontâneas e individuais, são a grande novidade no hoje efervescente cenário da juventude estudantil. São casos nascidos com base em uma ocorrência concreta ou da simples necessidade de discutir o papel da mulher na escola, de proibições veladas ou interdições explícitas, de garotas prestes a entrar na faculdade ou de meninas de apenas 10 anos, o que diz muito sobre as gerações que vêm por aí (conheça essas histórias nos quadros que acompanham esta reportagem).

O feminismo, você sabe, não é de hoje. O movimento está presente de maneira organizada pelo menos desde o século 19, quando aconteceu sua primeira grande onda, que lutava pelo sufrágio, o direito ao voto, na Inglaterra. A segunda ocorreu nas décadas de 1960 e 1970 com a invenção da pílula anticoncepcional e a chamada revolução sexual nos Estados Unidos. Esse período ficou marcado pelas manifestações de rua, em que mulheres chegaram a queimar seus diplomas de Ensino Superior, revoltadas, por não terem aprendido nada sobre a história do gênero na universidade. Ao mesmo tempo, também reivindicavam maior liberdade sobre seus corpos, sua sexualidade e suas escolhas de vida.

“Hoje já dá para falar na existência de uma terceira onda, com um feminismo mais plural do que nunca”, afirma Maria Helena Vilela, educadora sexual e diretora executiva do Instituto Kaplan. O barulho dos movimentos no século 21 é considerável. O que chama a atenção é a grande aderência de jovens meninas tanto nas ruas, em protestos e marchas, quanto no ativismo virtual, em grupos de discussão e blogs. Nos dois casos, a capacidade de organização via redes sociais é um fator de impulso e novidade. “A internet trouxe a possibilidade de as pessoas falarem em primeira pessoa e conhecer ações em todo o mundo, o que unificou muitas lutas”, diz Maíra Kubík Mano, professora do departamento de Gênero e Feminismo da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

O poder feminino de usar a quadra

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Dez anos de idade é cedo demais para ser feminista? Não na Escola Edem, na capital fluminense. Por lá, os meninos ocupavam quadra e não gostavam quando as meninas pediam para jogar futebol – queriam que elas ficassem como chefes de torcida.

A situação revoltou a turma do 5º ano. “Um dia, invadimos a quadra e os meninos tentaram nos expulsar. Começamos a gritar ‘Poder feminino!’ e esse virou o nome do nosso time”, diz Gabriela Faria Machado Garcia, 10 anos. Foram além: resolveram desafiar os meninos para jogar!

Depois de muito treino, foram para o desafio... e perderam por 8 a 1. O que poderia ser um balde de água fria só serviu para que elas dedicassem mais. Na segunda partida, mais equilibrada, a desvantagem foi de apenas um gol. “Os meninos ganham só porque treinam mais do que a gente”, diz Gabriela. A amiga Catarina Goerdert Massari, 10 anos (no meio, na foto acima) se diverte: “Eles jogam futebol desde sempre. Mas, na queimada, quem ganha mais vezes é a gente.”